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Contando "Causos"
por Sami Mattar

Lembranças

É uma retrospectiva que requer muito esforço de memória!
Bem, vou ao arquivo da vida procurar as primeiras anotações.
Vasculhar o subconsciente é complicado...
Mas vejamos: foi numa pequena cidade nas montanhas do Líbano, perto de Beirute, chamada Mejdlaia, eu e mais dois primos, sentados no grande corredor que vazava a casa até o quintal; até hoje ninguém sabe como aconteceu, foi uma saraivada de chumbo que nos atingiu.
Só me lembro que foi sangue pra todos os lados, correrias, choros e confusão, não me lembro bem, sei que acordei num hospital em Beirute.
Meus primos?... Não me lembro mesmo! Fiquei sabendo que casaram...
Bem, eu estava com três anos, tenho setenta, não dá pra lembrar bem! Até hoje tenho marcas de chumbo nas pernas...

No Navio

Um ano depois meu pai foi para o Brasil, para Oliveira, MG. Lá moravam alguns parentes, vovô, o pai de minha mãe e "brimos". Eu sentia muita falta de meu pai!
Passaram-se dois anos até que papai mandasse as passagens, foi em 1936 -- o navio "Oceania" estava lotado, nós viemos na segunda classe, mamãe, minha irmã mais velha, eu e a caçula.
Na primeira semana pintou catapora na caçula, todos para o hospital... foi um terror; ficar preso? Jamais! Eu fugia todos os dias, e a enfermeira saía apavorada à minha procura. Eu, que nos primeiros dias brincava com a caçula num espaço livre do navio (ah... me lembrei que num destes dias o chapéu dela foi levado pelo vento e ficou flutuando nas ondas -- não pensei duas vezes, eu já ia pular quando um marinheiro "anjo" me pegou pelo fundilho), não podia ficar trancado naquele hospital; a italiana resolveu esconder minha roupa, me deixou nu. Bem... o jeito foi sair pelo navio de corpo e alma, que fazer? Ela foi me achar lá onde fabricavam gelo. É, eu estava chupando gelo, fazia muito calor naquele dia. A italiana pôs as mãos na cintura e disse: "é veroooo". Me pegou ( não foi fácil... ), me colocou no ombro, era uma italiana forte; eu esperneava tanto que ela resolveu me acariciar, e eu fiquei calmo, muito calmo... não sei porque!... Eu passei então a fugir duas vezes ao dia.
A caçula sarou. A viagem foi só alegria junto da minha nova babá até o Rio. A despedida foi muito triste... nunca tinha visto uma italiana chorar tanto, ela me deu um saco de balas deliciosas.


Do Rio de Janeiro para Oliveira, MG


É uma cidade plantada na crista de uma montanha, pacata e alegre, uai... Foi aí que começou minha agonia -- um mês depois me levaram para a Escola e eu ainda não sabia o que significava "uai"...
Todo árabe que chegava ao Brasil era chamado de turco, por isso eu era "Turquinho, o brigão".
Pior é que todos os dias depois das aulas, uma turma vinha atrás cantando em coro: "Turco Rabataxa, Barriga de Borracha". Bem, eu não entendendo o porquê, não podendo enfrentar todos, descontava dentro da sala de aula, no dia seguinte; resultado: expulso.
Vejam vocês!... até os meus primos me chamavam de Turquinho, aí... saía briga. A gente morava numa fazenda do meu avô. Estava desativada, abandonada. Diziam que era mal-assombrada. Meu pai tinha um armazém (secos e molhados) na parte de baixo. Quando ele viajava era um terror, de madrugada uma barulheira na cozinha, panelas e pratos caindo, parecia que jogavam tudo no chão; aí minha mãe, com a vela na mão -- e nós agarrados nela -- ia até a cozinha, estava tudo no lugar. Ninguém dormia naquelas noites, e no dia seguinte tinha que ajudar no armazém.

Eu já sabia o que significava "uai" -- só uai, nada mais. Eu não saía de casa. Estava traumatizado. Era só pôr o pé na rua e lá vinha a garotada: Turco rabataxa... barriga de borracha. Aí, já sabem... Nenhum garoto podia olhar pra mim que eu saía batendo... Uma vez estava parado na porta do armazém, quando um garotinho negro me pediu esmola. Foi assim de supetão, eu levei um susto e bati no menino, ele saiu correndo... Meu pai, que presenciava tudo, me deu uma boa surra e explicou: o garoto só queria uma esmola (em Árabe, é claro!). Olha... se arrependimento matasse como dizem, eu não estaria aqui escrevendo essas baboseiras da minha infância... Aí, complicou tudo, cadê o negrinho? Pois eu queria desculpar-me, uai... podem acreditar! O menino passava diariamente, do outro lado da rua, e correndo. Foi preciso esconder-me para agarrá-lo na raça... Levei-o até o armazém e lhe dei uma rapadura inteira, aí ele entendeu, uai... deu um sorriso agradecido. Meu pai, que viu tudo, me deu outra surra dizendo (em Árabe): "Porque você deu uma rapadura inteira?" Aí eu respondi: "uuuaaaiiiii...por quê??"... É... eu tinha que aprender o português...

O meu tio, irmão de minha mãe, me ensinava nas horas que ele tinha que fazer os deveres da escola, me dava lápis e papel e algumas revistas de estórias em quadrinhos, mas o propósito era me manter quieto ao lado dele, evitando assim as brigas com os primos, que perturbavam todo mundo. Aí, eu copiava os desenhos, ampliando as figuras dos mocinhos e dos bandidos. Meu tio achava que eu levava o maior jeito para desenhar; é, todos gostavam de me ver desenhando, até os primos ficavam ao meu lado desenhando também. Foi assim que além de saber o significado real do "uai", aprendi o português.

Eu já estava com oito anos, tinha que estudar... Voltei para a mesma escola de onde tinha sido expulso, aí começou tudo de novo; só que desta vez eu já entendia tudo. Mas ainda guardava mágoas. Minha irmã caçula estudava na mesma escola, em outra sala. Da janela eu via o pátio interno da escola. Eram mais ou menos nove e meia daquela manhã, quando olhei pra fora e vi no pátio a professora de educação física batendo na minha irmã. O sangue ferveu... pulei a janela e derrubei a professora, montei em cima dela, e ela gritou: SOCORRO, Geraldinho... Imediatamente veio alguém correndo, eu escutei os passos apressados e fugi, só que saí para o lado errado, fui de encontro ao salvador da professora -- tinha muita gente e perdi o rumo --, batendo de frente no próprio. Não sei exatamente onde bati com a cabeça, só sei que o moço ficou gemendo no chão. Não é preciso descrever o que aconteceu depois... Bem... aconteceu tudo que vocês possam imaginar! Acho que fui o primeiro aluno a ser expulso duas vezes da mesma escola.

Em Oliveira só tinha um grupo escolar, um ginásio e um internato. O diretor, que era amigo do meu pai, falou com ele que eu poderia ficar semi-interno, isto é, só iria pra casa no fim de semana. No internato não tinha o curso primário, um dos alunos é que me dava aulas. Como eu era o caçula da turma, não tinha com quem brincar na hora do recreio, me sentia desprezado e triste, apesar de serem meus amigos e de gostarem de me ver desenhando.


De Oliveira para Belo Horizonte, de lá pra Sete Lagoas

Aí passei a desenhar o tempo todo, me sentia mais feliz. Assim que terminei o primeiro grau mudamos para Belo Horizonte, onde meu pai abriu um bar e restaurante. Naquele mesmo ano o diretor do internato de Oliveira comprou um colégio em Sete Lagoas, uma pequena cidade perto da capital. Em visita a B. Horizonte ele foi ao restaurante para jantar; resultado: estudar o segundo grau em Sete Lagoas, interno, só indo para casa nas férias.

Não me lembro como foi a viagem até lá, sei que atravessamos uma ponte no centro da cidade. Em Sete Lagoas, tem sete lagoas, uma no centro. No final da ponte, bem em frente, está o Colégio, um prédio grande e bonito. Meu filho... comporte-se bem, não estrague os cadernos e os livros com desenho, senão... já sabe. Que Deus lhe abençoe. Sim Baié (pai). Eu misturava as duas línguas e dava certo. Entramos depois de um aceno de mão. Este é o reitor, esta é sua cama e ali você guarda sua roupa, número 18, lá fica o banheiro. Foi feita a apresentação ao alunos internos. O pátio, muito grande, tinha um campo de futebol depois do muro. No primeiro dia de aula ganhei livros, cadernos e lápis com a ponta bem feita, era uma tentação... me lembrei do velho e... passou aquela vontade quase irresistível. Eu sabia que na quinta-feira da próxima semana tinha aula de desenho, não foi fácil esperar até lá. Abri o caderno na última página e fiquei desenhando escondido. De vez em quando eu tirava uma página pra desenhar. Não sobrou nem um caderno. E agora!? O reitor foi camarada, me deu mais dois cadernos – olha, não fica rabiscando os cadernos, senão vamos ter problemas, tá? "Tá... eu não vou desenhar mais nos cadernos". Aí eu passei a desenhar nas páginas claras dos livros e no caderno de desenho, todos gostavam e admiravam os meus desenhos, ainda fazia esculturas de barro lá no campo de futebol -- o campo era um aterro e um dos lados formava um barranco onde eu tirava terra, molhava e esculpia. O reitor disse para o diretor que eu estava acabando com o campo, com os cadernos e com os livros, rabiscava as paredes -- acho que eu fui o primeiro pichador do Brasil. Era um castigo atrás do outro... O castigo era copiar a mesma frase cem vezes ou mais. E eu continuei a rabiscar, como diziam. O diretor falou com o meu pai. O melhor é mudar de castigo, suspender as aulas de desenho o resto do ano, assim ele aprende a lição. Isso foi realmente terrível, fiquei muito furioso, com raiva mesmo... Não dormia direito, não me alimentava bem, e por aí vai...

O primeiro mês passou, eu não agüentava mais, fiquei revoltado. Brigava por nada com os colegas, e até com os amigos. Quatro semanas sem assistir a uma aula de desenho!
Foi aí que resolvi arquitetar um plano perfeito: entrar na sala alguns minutos antes e ficar escondido debaixo da última carteira para assistir à aula, pois as carteiras naquela época eram grandes; uma vez adentro o professor não ia se importar comigo.

O plano seria perfeito se alguém não tivesse me dedurado.

-- O que é que o senhor está fazendo aí atrás?
-- Quem... eu?
-- É o senhor mesmo!
-- Bem... eu... eu quero desenhar, uaiiii...
-- Uai... não. Não tem uai aqui, por favor, saia da sala já.
-- Ah, professor, deixa eu ficar mais um pouquinho?
-- Não senhor, PODE SAIR JÁ...
-- É só um pouco mais, professor...

Este papo demorou um bom tempo, então o professor mandou chamar o reitor, os dois tentaram me tirar na raça. Um pegou no meu braço direito, e o outro empurrando pelas costas e eu com o esquerdo agarrado na carteira, os alunos levantaram (rindo) para dar espaço para o grande duelo. Depois que a última carteira passou a ser a primeira é que eu perdi a parada.
Já no pátio com o reitor ainda agarrado no meu braço, fomos até a sala do diretor.

O diretor: -- Então, o que é que o senhor andou aprontando desta vez?
Eu: -- É que eu queria...
O reitor: -- Ele não queria nada, entrou na sala e se escondeu debaixo da última carteira...
O diretor: -- Que sala?
O reitor: -- Na aula de desenho, senhor!
O diretor: -- Então o senhor desobedeceu a ordem da diretoria?...
Eu: -- É que eu queria...
O reitor: -- Ele queria era tumultuar a aula; eu e o professor e mais alguns alunos que nos ajudaram tivemos que tirá-lo da sala, depois de mais de uma hora.
Eu: -- É que eu queria...
O diretor: -- Chegaaa....

É... Já sabem o que veio depois! Escrever quinhentas vezes a frase: "não devo desobedecer as ordens da diretoria"
Foi na sala de conferências que eu fiquei, sem recreio. Pintou uma idéia que me pareceu boa, pegar quatro pedaços de lápis e com dois paus de picolé (um de cada lado) -- eu escrevia quatro frases de cada vez. Já estava cansado de escrever, dei um tempo. Andei pela sala um pouco, ali na frente tinha uma mesa e do lado um quadro negro e giz de todas as cores e em cima da mesa um livro, e na capa o retrato de Duque de Caxias. Olhei para o quadro e para o livro várias vezes, e depois para os lados. Desenhei no quadro o retrato de Duque de Caxias bem grande. Já estava terminando quando alguém entrou, era o diretor. Você pode imaginar o que eu senti naquele momento? É... não foi fácil ficar em pé, tentei apagar o desenho mas ele não deixou, segurando minha mão ainda com o apagador e disse: "-- Quantas frases você já escreveu?" "-- Não sei bem, duzentos e pouco", respondi, "mas vou terminar assim que apagar o quadro negro." "-- Não, você pode terminar mais tarde. Pegou o apagador da minha mão e mandou sair para o recreio. Não compreendi porque aquela atitude... Só sei que fiquei muito feliz. No pátio não tinha ninguém, era sábado... saíram todos para um passeio, aí eu fui para o campo de futebol; no barranco, em toda a extensão do campo eu construí uma pequena estrada com pontes (mata-burros) e cidades com igrejas e animais de barro, também árvores com pequenos galhos com folhas miúdas, tinha até carro de boi na estrada. Estava olhando tudo para ver se fazia mais alguma coisa na estrada quando ouvi uma gritaria vindo do pátio ao lado (o campo era separado do pátio por um muro), eram os alunos voltando do passeio. Pouco depois entraram com uma bola e começou a "pelada". Alguém dos que estavam assistindo o jogo me viu dando um retoque na estrada e: "-- Olha o que ele está fazendo, está cavando no barranco que já não é nada firme, vamos falar para o reitor!"... E aí já viu... deu em briga; a "pelada" parou para assistirem à briga junto do barranco.

Vieram os mais velhos para separar, desceram e subiram o barranco pisando na minha obra, estragando tudo. A intenção era boa, pisaram na estrada sem querer. Mas os outros destruíram as cidades, os animais, e a vegetação em toda a extensão do meu mundo. Foi um fim de tarde bastante tumultuado, ninguém ficou ferido gravemente nem de castigo, mas... passei a ter alguns inimigos. No dia seguinte (domingo, 25 de agosto, DUQUE DE CAXIAS), uma grande surpresa... Aliás, muitas surpresas. Seis horas, todo mundo acordando, fila do banho. Não é preciso dizer que saiu briga na fila. Como sempre, eu era o último. Uniforme de gala branco, botões dourados, talabarte e na cabeça aquele boné de soldado. "-- Uaii... vai ter parada hoje?..." Alguém respondeu: "não, palhaço, é a comemoração do dia de Duque de Caxias, na sala de conferência". Eu tinha me esquecido, pois não me lembrava nem em que mês estávamos. Todos em fila no pátio (eu era o último) para uma revisão nos uniformes. Entramos na grande sala que estava lotada, os alunos externos e seus pais, soldados do Tiro de Guerra, o diretor, sargento, prefeito e outras personalidades em pé na frente, nós ficamos sentados na primeira fila. O Sargento fez um belo discurso e tirou a Bandeira Nacional que cobria o quadro negro. Lá estava o Duque de Caxias que eu tinha desenhado... Eu fiquei apavorado, tremia que nem vara verde (medo do castigo) minha cabeça girou que nem pião, a vista escureceu e... levantei que nem uma faísca, e num segundo estava eu apagando o quadro negro quando alguém segurou minha mão, pegou meu braço e arrastou pra fora dizendo...#!*+XYZ#*... e mais não sei o quê... É, foi traumatizantemente dramático... Um dia inesssquecível. Até pensei que estava ficando maluquinho, fiquei imaginando: -- O que eles realmente querem!?" Não posso fazer o que eles querem que eu faça, e quando faço, eles não querem o que querem que eu faça. "Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come" Ou é ao contrário? Minha cabeça deu mil voltas, voltei à época em que eu ainda não falava o português e me lembrei de tudo, foi uma cansativa retrospectiva, cheguei à conclusão de que eu não era maluquinho, afinal não sou mais criança, vou fazer dezesseis anos em Fevereiro, no ano que vem. Então eu disse comigo mesmo: "-- EU SEI O QUE EU QUERO".

E sei mesmo... (eu estava com muita raiva) eu quero ser um pintor, um artista. Acho que todos pensam que eu sou um arteiro! Estão muito enganados! Eu não quero saber o que pensam. Fui para o dormitório, sentei na cama imaginando o que iria acontecer, quando terminasse aquela comemoração. Alguns minutos depois entravam os alunos para trocar a roupa, fazendo grande algazarra, muito barulho, algumas brigas, todos estavam apressados. Alguns mexeram comigo, mas eu nem escutei o que falaram, só me lembro que alguém perguntou porque eu não fui almoçar. Estavam todos apressados, queriam sair pela cidade. Da janela dava pra ver o sol refletindo nas águas da lagoa, uma tarde de domingo muito alegre. Eu tinha uma namoradinha, me deu vontade de sair pra encontrá-la, aí me lembrei da última vez quando estávamos sentados no banco de pedra debaixo do caramanchão de um pitoresco jardim ao lado da lagoa, tinha um formigueiro do lado do banco, do meu lado. Um lindo final de tarde, já escurecendo e as primeiras estrelas despontando, enfim, um entardecer romântico. A gente abraçadinho, uma meia hora depois eu estava sentido as formigas subindo pelas pernas, e eu envergonhado (era o primeiro encontro) não pulei nem disse ai... sabe como é, machismo, uai. Bem, as formigas já estavam faltando com o respeito quando eu disse: "-- Acho que aqui tem formigas"... Pois é, eu só estava pensando em não pensar em coisa pior, porque minha vontade era de sumir.
Foi aí que me lembrei das férias de julho. É isso mesmo, depois das férias eu não vou voltar para este lugar, nunca mais... Fechei as duas portas do dormitório e as janelas (o dormitório ficava no segundo andar). Estava muito cansado, peguei no sono em minutos. Sonhei que estava em um lugar muito bonito, muitas flores, rosas de várias cores. Vi entre as rosas uma imagem de mulher, parecia uma pintura, seu rosto brilhava que nem o amanhecer de um lindo dia, com um manto branco transparente que se misturava com as nuvens do céu, ela colheu uma rosa e me ofereceu. Nesse momento fui acordado por alguém que esmurrava a porta gritando meu nome. Ainda sonolento me dirigi para a porta, perguntando: "-- Quem está fazendo tanto barulho a essa hora?" "-- Abra essa porta, JÁ" (era o reitor).

Foi aí que eu acordei. Respondi, vacilante:

-- É o senhor, "seu" reitor ?
-- É sim senhor, ABRA JÁ essa porta...
(silêncio total)
-- Bem... eu só abro se o senhor prometer não me castigarem por causa do Duque de Caxias, se não... todos vão dormir no corredor, combinado?...
(Esse papo levou um bom tempo de negociação)
Ele respondeu:
-- Coombinado...
Aí eu perguntei:
-- Ninguém vai brigar comigo? A resposta foi um NÃOOO.

Abri a outra porta, que ficava no final do corredor à direita, pois todos estavam em frente à porta da esquerda, aí todos correram pra lá; quando entraram, eu já estava deitado, houve um pequeno tumulto, ameaças de alguns colegas, mas o reitor interferiu e todos dormiram em paz. Sexta-feira, todos arrumando a mala. A minha já estava pronta há três dias, estava ansioso, não via a hora de partir.


Férias Puxadas

De Sete Lagoas a Belo Horizonte é um pulo, mas pra mim foi uma longa viagem. Chegando em casa fui recebido com muito amor por todos. Minha mãe me abraçou e beijou com tanto carinho, que até hoje sinto aquela energia que só o AMOR de mãe tem.
Somos seis irmãos, três meninas -- eu e duas meninas nascemos no Líbano, no Brasil nasceram os outros dois meninos e uma menina. Meu pai é um matemático, não é?... Lá pelas oito, oito e pouco, chegou o patriarca, também me deu aquele abraço e perguntou:

-- Quero saber o que você andou aprontando (o diretor já tinha telefonado).
-- Não aprontei nada pai...
-- E porque o castigo se você não fez nada?
-- Eu não sei, não entendi porque!
-- Tá bem... depois vamos esclarecer tudo.
-- Sim senhor.

No dia seguinte, meu pai me tirou da cama bem cedo.

-- Filho, vamos tomar o café, você vai comigo.
-- Pra onde?
-- Pra loja, me ajudar um pouco.
-- Hum... ajudar em quê?
-- Tomar conta da caixa, atender os clientes e etc.

Meu pai era um grande atacadista de seda, tinha uma das maiores lojas de atacado no centro comercial de B. Horizonte. Naquela época ele trabalhava também no mercado imobiliário, tinha casas e apartamentos em B.H. e no Rio também. Com toda essa atividade comercial, era preciso ter alguém de confiança na loja. Ele tinha um funcionário que era o braço direito dele, mas naquele dia os dois tinham trabalho na rua, disse ele que foi por isso que precisava da minha ajuda. Fomos para a loja e fiquei ali sem saber o que fazer, pois uma casa que só vendia tecidos por atacado não tem grande movimento, entrava um ou outro cliente que era atendido pelos funcionários. Eu ficava encostado no balcão perto da caixa olhado as pessoas passarem na rua.

Bem, já que não tinha o que fazer, eu pegava um lápis e papel e fiava, como dizia o reitor do internato—rabiscado. Desenhava figuras estranhas, animais, paisagens e até caricaturas, mas olhando sempre para a porta, preocupado, meu pai não poderia me ver desenhando. Eu tinha que ir todos os dias com ele, um dia ele voltou mais cedo e me pegou de surpresa.

-- É assim que o senhor trabalha?...

Não esperou a resposta. Quebrou o lápis, rasgou os desenhos, e jogou no lixo, me deu uns tapas e disse: (com aquele sotaque do árabe)"-- Você não vai come bão do seu arte" (você não vai comer pão com sua arte). "Todo artista é vagabundo. Vai pra casa já"... Quando ele chegou casa... chegou reclamando e batendo, aí entrou no rolo minha mãe, minhas irmãs e até o vizinho. Continuei ajudando na loja até terminar as férias. Eu estava determinado a não voltar para o internato; pura ilusão. Fomos de carro pra Sete Lagoas. O colégio tinha nova cara, pintura nova, estava bonito, alegre, mas eu... muito triste. Meu pai bateu um papo longo com o diretor e depois comigo, na despedida me beijou e abençoou. Fui para o dormitório guardar a mala, chegaram todos os alunos naquele final de semana, os comentários sobre as férias dos poucos amigos que eu tinha, eram alegres, futebol, passeios e outros lazeres, eu ficava feliz por eles.

Na segunda-feira, começaram as aulas, tudo bem até quinta-feira, todos da minha classe foram para aula de desenho, eu tentei entrar, assim com quem esqueceu do passado, aí... fui barrado. O que fazer?


 
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