ARTEUNI-VERSO de SAMI MATTAR, por VICENTE DE PERCIA

O UNI – VERSO de Sami Mattar é complementado por dois aspectos importantes: o artista atuante e as individualidades legadas e adquiridas. Nascido em Mejdlaia no Líbano, veio para o Brasil, Minas Gerais, aos seis anos. Em 1947 mudou-se para o Rio de Janeiro. Em 1954 realizou sua primeira individual. Artista figurativo, abordou numa das suas primeiras individuais, na década de 60 o retrato. Partia da figura humana para uma investigação mais específica de personalidade, projetando através do retrato um tipo de relação social. Compartilhava com o público desde já o interesse pelos componentes e manejos da sociedade. Esta mesma abordagem tem continuidade anos mais tarde, quando cria modelos para a mulher. O artista complementa a observação anterior de forma mais crítica, inquirindo desta feita a relação direta do corpo, do vestir, no valor do desenho estampado na fazenda – há o encaminhamento da pergunta, no tocante de ser a sociedade tão saudável ou livre quanto os indivíduos. Esse relacionamento trazia à tona a preocupação com o público, no sentido de sua arte ser vista com maior intensidade; ser discutida, num contexto aparentemente diverso, menos elitista.

A dinâmica dos nossos dias acelera mais e mais os pronunciamentos e um exame constante impulsiona o artista para a investigação. Cabe apreciar os resultados e checar o posicionamento em função da experimentação – conteúdo e forma.

Na década de 60, Sami Mattar participa ativamente do círculo das artes, mexe com identidades, com o coletivo e o individual; são molas impulsionadoras do comportamento a que sempre esteve atento. O importante é que inseria a ação imediata da arte moderna na co-participação com o público, numa chamada com o intuito de querer aproximar a idéia utilizando-se muitas vezes das afirmações da massa. Não era mera contemplação, seu relacionamento com a moda prova um exercício sério mostrando um ser diante das suas expectativas, tentando reativar seus anseios num confronto, numa constante dialética.

Nos anos 60, Sami Mattar parte para várias construções significativas. São obras feitas com suportes diferentes; sucatas urbanas, acrílico, madeira, encerrando um valor crítico imediato.


HOT-DOG - Objeto com tinta acrílica exposto no Museu de Arte Moderna, do Rio de Janeiro, mexia diretamente com a participação do público – HOMEM MÁQUINA E MOVIMENTO. Em vez da contemplação desinteressada, a riqueza do imaginário. O homem diante dos vários signos, os novos arquétipos assimilados de todas as maneiras; o nostálgico, o romântico, o indulgente, o entusiasta. Sami Mattar traça ativamente, neste período, o paralelo entre a vida e a arte, relacionando o homem com a máquina, formando um corpo intimamente ligado com o ambiente físico. No seu objeto, HOT-DOG, a atenção voltada para o gosto da cidade, a base conceitual que modifica a imagem à medida em que se discute a informação. E a percepção do mundo repleto de luzes e cores, são cenas do cotidiano que o artista trazia para serem admiradas.

VOVOBJETO

Nota-se a presença do homem ligado à propaganda, outro suporte de informações que revende imagens. Cinema, histórias em quadrinhos, televisão, capas de revista, marketing, completam o UNIVERSO de uma poética existencial, palpável, não só vendo o sentimento manufaturado, o consumismo irrefreado, mas com o olhar voltado para uma sensibilidade outra que se refaz. “... As imagens são ambíguas e enigmáticas porque as suas colocações estão dominadas pelo enigma e pela ambigüidade. A realidade em cada objeto, em cada flor, em cada mulher, mas um mistério pairado na atmosfera da composição.” Hugo Auller. Arte Pop estava presente nos materiais populares utilizados e conseqüentemente, na interpretação do ser humano; agregado a isto, o meio circundante. No Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, executou uma performance na qual utilizava a luz negra sobre várias bolas de ping-pong, rolando pela escada, ao mesmo tempo em que uma grande rosa pintada também com tinta fosforescente era atingida pela luz. Este ato criador levantava de certa forma a discussão de uma nova arte, aproximando-o de artistas tais como Barrie Bates, Patrick Caulfield, Allen Jones, Peter Phillips. A figura do Batman é recriada com outros personagens dentro do contexto universal, aliada a uma nova vitalidade da figuração coesa com o presente. Utilizava-se da pintura padronizada do objeto tridimensional, da abstração, do interesse crescente pela matéria prima comercial e nos símbolos mais corriqueiros. SONHO E FANTASIA Na décima  Bienal de São Paulo, Sami Mattar fica agrupado na Sala de Arte Fantástica, juntamente com uma homenagem póstuma a dois pioneiros do surrealismo Brasileiro, Ismael Néri na pintura e Goeldi na gravura. Sonho e Fantasia é o subtítulo adotado nessa mostra e sua produção estava voltada para a chamada Arte Biônica. “... arte de Sami Mattar é contida, e elaborada com gosto pela figura precisa e definida, num acabamento de arte final. Essa contenção é sublevada pela distorção anatômica de seus estranhos personagens ou pela desmontagem e remontagem, aparentemente arbitrária das figuras, mas que obedece a uma intenção inconformada e critica.” - Ferreira Gullar.


Entre os trabalhos apresentados na Bienal estava o objeto RADIOGRAFIA DO CORPO HUMANO – um desafio criado pela ampla utilização de estilos. Focalizava o corpo humano, numa transparência que permitia ao público ver as vísceras representadas por materiais diversos:  tubos, peças, condensadores, alto-falante. Estabelecendo um contraste em função à série anterior, surge um novo desafio crítico correlacionado à condição humana. Existe a proposição do artista em mexer com o senso crítico do espectador, fazendo com que a obra de arte não se torne um simples adorno. Cabe ressaltar a coerência do encaminhamento da obra de Sami Mattar nesta década, coerência esta credenciada na utilização das cores: rosa, amarelo, cinza, o vermelho e o verde.

O Homem e a Máquina são a tônica deste vanguardista em contrapartida com a denúncia de um mundo cientifico, caótico, alienado. É a chegada de uma visão apolínea, que faz o espectador pensar nas causas e efeitos. Manifesta-se o prenúncio da ficção, tão vivida por nós nos fins dos anos 70 e início da década de 80, no cinema. O outro mundo que se apresenta belo, temeroso, irresistível. A viagem por outras galáxias oferecendo o contraste da violência e serenidade, esta continuidade é tônica central na trajetória de Sami Mattar, cujos temas são voltados para a indagação do progresso e da tecnologia. Noutros objetos surgem cabeças humanas, abertas, colocadas na parede, uma acima da outra, formando um só corpo. Salientam-se os recortes, que sugerem arabescos com o uso especifico de uma montagem delicada para trazer a impressão do funcionamento do corpo e suas dependências. São símbolos e o tema do objeto é um quadro crítico, sem dúvida um posicionamento antagônico para afirmar um contínuo movimento “criador de quimeras, maquinomens, mecanomens, anteposts, trânstipos, sântipos, útipos, ele aí está, antivoz, e antiqüíssimo a resolver arcanos, pretéritos e futuros, e a propor-vos, redivivo, um decifra-me,” sem risco para “devoro-te”, embora seja certo que ao cabo saireis mais humanizado, feliz ou sofrido, não importa, mas seguramente diferente para mais e melhor se o quiserdes.” - Antonio Houaiss.

A proposição de Sami aguça a memória e nos leva a tempos passados, numa especificidade de formas de diferentes superfícies, no UNI-VERSO calcado num ritmo coerente de equilíbrio plástico. As máscaras assinalam os centros geradores da vida, representam ciclos, culto e mistério. A tristeza, alegria, e desespero do homem resultam de um longo processo histórico, de crescimento interior. Esta totalidade Sami Mattar colhe, permitindo uma visão analítica ampla, onde não escapa a fria objetividade cientifica, que permitiu ao homem criar armas nucleares. Dharma simboliza o cosmos na busca de uma nova dimensão. O artista recorre à união com o outro num UNI-VERSO positivo, fora dos instintos agressivos. Esta dualidade de interpretações proporciona um constante relacionamento analítico quanto ao conteúdo e à forma da obra de Sami Mattar. Os valores da terra brotam na obra de Sami Mattar, na lembrança e admiração a Magritte. Reencontra nesta escolha a poética contemporânea envolvida por um clima de espiritualidade e suspense. O enigma da esfinge, o encontro com elementos da terra, o cultivo do retiro comum, frutos da origem, aberto a um vôo cósmico de intermináveis interpretações. Revela correspondências, discursa sobre influências concentradas na sua composição, todas as possibilidades da expressão plástica. Esta correspondência cede ao apelo interior do artista.

ESPAÇO PERCORRIDO

A obra de Sami Mattar desperta questionamentos por vezes rígidos, porém de uma energia vital aliada a emoções. É um percussor ao discutir a informação, jogar a pintura no conjunto com outros materiais, montando um efeito resultante da sobreposição das construções. O elo da união é complementado numa metáfora na visão engajada, no conjunto de decisão paralelo às composições, concluindo a antítese de uma década de experimentações, com sutilezas, automática requalificação do realizado.





LEMBRANÇAS

Os anos 60 debatem o problema da chamada  “cultura popular” O Centro Popular de Cultura abordava a presença da arte junto às chamadas camadas populares. Havia grande disposição de questionar o ato de criar, fazendo com que a arte do povo fosse vista sem certos clichês impostos pela classe dominante. Buscava-se com essas indagações, uma revisão na reflexão de ver e compreender a arte, fugindo a certos padrões que serviam somente como entretenimento, como elemento ilusório, distante da própria realidade. Lançava-se a questão da necessidade de pôr a cultura a serviço do povo e conseqüentemente dos interesses reais do pais. Em janeiro de 1969, apesar do processo político que reprimia a criação artística, uma manifestação é realizada: o Super Mercado da Arte, com a participação direta de Sami Mattar. Apresenta nesse espaço a pintura cibernética; sua participação complementa experimentações anteriores e as que estão para vir. Não vende frutas nem macarrão, não negocia com carne, nem oferece aspirina, mas igualmente põe seus produtos ao alcance do público, que apresenta uma diferença em relação aos demais supermercados da arte que pintores e escultores fundaram na Guanabara para ensejar a melhor comunicação entre o povo e os artistas, e que parte do pressuposto de que a arte moderna é algo que tem-se que aprender a gostar. Todavia, para que isso aconteça é forçoso que ela não fique confinada aos Salões e Museus, mas que vá procurar o público lá fora, estabelecer comunicações; “elitizar” o vulgo e não “vulgarizar a elite.” - Jornal de Letras. 24.01.69

Esse desprendimento Sami trazia como homem ligado à publicidade e outros projetos são realizados, entre eles o lançamento do Poster-Poema, com o poeta Heitor Humberto de Andrade. A finalidade era tirar a poesia das prateleiras, caminhar com as artes plásticas, levando-a às escolas, restaurante, lares, sendo melhor absorvida pelo povo. Sami desenhou uma grande boca utilizando cores compactas onde se lia “Só/ milhões se cruzam/ não se falam/ não se beijam/ nem trocam de olhares ternos/ surge um poema gritando/Amo.”



Outro movimento relativo ao espaço urbano, idealizado por Sami Mattar foram os poster/ barraca formando uma nova onda nas praias do Rio de Janeiro. Tinha ilustrações de Rubem Valentin, Renina Katz, Juarez Machado, BrunoTauz, Scliar, Ziraldo, Jaguar, Sami Mattar e outros – “Nós como artistas plásticos estamos introduzindo a arte em todos os setores da vida. Resolvemos então, combinar o prazer do banho de mar com a suave sombra da arte”. Abre-se campo de pesquisa em relação ao design gráfico, do mesmo modo que o artista dava atenção ao temas voltados para suas diferentes temáticas. Sami atuava colhendo considerações do público através de um feedback.

... homem de talento, e cultura, inteiramente voltado para a exploração de suas possibilidades pessoais e artísticas, fiel ser de sua atividade, consciente de que o desenvolvimento de sua arte é o desenvolvimento de sua personalidade humana. A verdade é que Sami Mattar pertence à antiga estirpe de quem a vida e a arte não são elementos díspares, mas ao contrário, são expressões interpenetrantes da vivência humana.” - Jacob Klintowitz.


































A grande herança dos anos 70 é, para o artista, sem dúvida alguma, redescobrir e remontar em cima dos exercícios realizados. No plano das artes cênicas acontecia o cultivo americano dos grandes filmes de efeitos especiais, buscando o público voltado para a TV, abandonando o underground. Em 70 as imagens da arte ficam na expansão da televisão, cerca de 60 milhões de pessoas, quinze milhões de aparelhos, cobrindo cerca de 90% do território nacional. Surgiram as grandes cadeias, ensinando aos brasileiros como vestir, comer, agir. A década de 70 trouxe o rock, pronunciamento forte em relação às artes visuais. Óperas como “Godspell”, “Jesus Christ Super Star”, cativavam as platéias. A década de 70 arrebenta nossa esperança com a queima do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Um constante inusitado para um país que, só em São Paulo, no ano de 1975, tinha movimentado milhões de cruzeiros em leilões de arte no eixo Rio - São Paulo.

























AMOR E ENIGMA

Não se pode deixar de relembrar a Pop-Arte, e o artista plástico americano Rauschenberg, que em 1964 conquistou o prêmio internacional de pintura na Bienal de Veneza. Não se pode deixar de relembrar a participação de Sami Mattar na Nova Objetividade, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 67. Esta passagem é intensamente vivida pelo artista, faz parte do seu amadurecimento e contribui em muito para uma visão critica de seus trabalhos atuais. Este inconformismo universal como reflexo de civilizações em crise. Por outro lado observava-se no geral o renascimento como ponto de referência básica do Pop. Todos os choques apareciam alertando, porém, desta feita, que era o homem da grande metrópole envolto em todos os significados, sofrendo diante dos meios de comunicação, que assinalava seu gosto. Sami Mattar distinguia-se no traçado, primeira etapa de suas telas; desde então havia nas suas proposições um conteúdo prévio que reelaborava o manejo dos meios materiais. “ ... É um dos artistas de sua geração que mais participa do movimento artístico nacional, sobretudo no Rio. Para Sami Mattar, o ponto de partida figurativo tornou-se indispensável. Situando-se numa faixa entre a atitude crítica e o envolvimento, ele em geral se atém à figura humana, de modo a, através dela, demonstrar a problemática da existência atual de uma civilização apoiada pela máquina.” - Roberto Pontual









O EXAME DO SONHO

A figura da mulher habita as telas de Sami Mattar. Altiva, vigorosa, dócil e hostil, ilustra as correlações arquétipas masculinas e femininas. “Eu vi, pois, nascer nos olhos daquelas mulheres, todo esse domínio da cor e da forma que ele possui agora. E vi, vindo para a tela, em todos os momentos destes trinta anos, todos os caminhos por onde sua angústia, suas incertezas, suas ânsias e suas buscas o levaram, até que ele chegasse a esse estágio cheio de mistérios e sugestão que é a pintura com que ele comemora trinta anos de trabalho e obsessão. Sami é um anjo. Um anjo obsessivo. Como, aliás, todos os anjos.” - Ziraldo


Suas figuras, seus personagens, surgem num misto de andróides/homens, num relato direto com o futuro. O cinema atual nos presenteou com um magnífico filme: “Blade Runner” (O Caçador de Andróides) do diretor Ridley Scott. É o questionamento pelas civilizações futuras da substituição do homem pela máquina. Este impacto pode ser apreciado na obra de Sami Mattar desde a década de 70, onde o olhar de Isis flui cercado de dilemas, enraizado numa natureza impessoal que transmite um efeito humanizador. É uma grande reação em cadeia que monta este UNI-VERSO. Peixe voador, pássaros, fogo, água, que se misturam com objetos simples  e  sofisticados, reinventam ou apresentam cenários distantes no tempo. É o imaginistico e o real que saltam atrás dos véus que cobrem ou entrelaçam suas figuras, sacrilizando a constante, dividindo com o espectador a energia, os raios da ciência e do amor, necessários à construção de um mundo belo em todos os sentidos. É o ataque ao mundo exterior com a finalidade de desordená-lo e fazer surgir dele o mistério, a surpresa. Poeta dos movimentos realize sem recusas. Revelador de afinidades desprenda o encanto das estranhezas. Circulando nos simples encontros. No ranger palpitante do homem. Teu ofício: VIDA.

Vicente de Percia - 1984